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07/02/2018: Passeio noturno

Em pedagogia de heroísmo rústico

levou-me meu pai a um passeio noturno

alta noite, pelo centro  nobre da aldeia

onde presenciei os primeiros caracteres.

Centro de poderoso latifúndio do café

exibia mansões e ruas abrigadas por árvores

que emitiam sombras aterradoras aos pequenos.

Deu-me a mão e passamos as dobrar os caminhos

que emanavam da pomposa igreja matriz.

Extático ante o ambiente nobre e sombrio

conhecia outra parte do mundo, recente por inteiro

e a imaginação corria célere por seus meandros.

Prostradas nos beirais de palacetes envelhecidos

dormitavam lendas urbanas de imaginações exauridas.

A lua ocupava o epicentro do telhado luminoso.

Os pingos da madrugada já deviam estar a tomar seus postos

na orquestra das alturas.

Meu verso solto e livre na poesia vazia

Era eco de um dizer distante.

A certos intervalos comuns

meu paia, no trejeito de uma solenidade caipira

retirava calmamente do bolsilho

um redondo Tissot branco e prateado

não sei era para dizer que se fazia tarde

ou se para mostrar-mo que o possuía.

No último degrau da escadaria desgastada

da velha matriz em que o pároco já se recolhera

um homem ainda jovem e bem aprumado

ajoelhado parecia apertar os olhos para que as lágrimas

que pareciam ter-se acumulado há meses

não rolassem insólitas pela arquitetura abaixo

e ouvimos sua prece;  que não perdesse a ilusão

do amor que conhecera naquele mesmo dia.

Nas casas reinava o silêncio de respeito e imponência

uma pensão ao lado da parada do trem ainda reluzia.

Voltamos a casa, no arrabalde,

que só era habitado por homens e mulheres

de mãos calejadas pelo trabalho incessante

nos latifúndios insensíveis a seus anseios básicos.

Ao ajustar o portão da cerca torta e da casa de madeira

olhei para o céu magnífico dos velhos astros

para intuir que sobre tudo aquilo algo maior nos movia.

 

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.