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06/02/2018: O porquê, o como e as consequências da queda da aeronave brasileira

Em espaço jornalístico, só cabe indicar os passos de uma investigação, tal como numa tragédia aeronáutica. O objetivo, no plano político, é mais amplo: trata-se de repor a ampla vida da nação nos eixos, além de evitar novas tragédias da mesma natureza. Portanto, seguem observações pontuais. Esperamos que sirva a análises profundas.

A causa: a ascensão do PT ao poder nacional. Não porque o governo Fernando Henrique possa ficar imune à análise. Mas  os governos que se sucederam ao regime militar seguiram o conhecido modelo do livre mercado e da democracia. Erros e acertos, mas nada que possa nos auxiliar na investigação de relevância no atual momento.                                               

Primeiro, o porquê da organização partidária do PT. A seus idealizadores, entre eles muitos intelectuais de proa, a tarefa de modificar o mundo não poderia ficar no campo reivindicatório. Conquistar o poder era imprescindível. O fiasco do socialismo real na União Soviética demonstrara, a muitos desses analistas, que o comunismo supostamente somente poderia ter lugar enquanto coroamento do capitalismo.

Era a vez do Brasil, então sétima economia do mundo. Por meios pacíficos e constitucionais. As primeiras vitórias do PT estremeceram teorias econômicas que expressaram a vitória do capitalismo no mundo.  Foram vitórias localizadas e pontuais. Primeiramente, ao conquistar a Prefeitura de Diadema, no ABC, berço do Partido e da organização operária, um conjunto de favelas fustigado por longos anos de corrupção e abusos. E de forte industrialização. A segunda, a da maior Cidade do Brasil, a Capital de São Paulo. Aos poucos avançava o exército comunista ou, no mínimo, qualquer coisa antípoda ao capitalismo monopolista de nossa era. Fernando Henrique Cardoso foi interpelado reiteradamente pela burguesia internacional a respeito do tema. De sua maestria como sociólogo, acalmava os ânimos. O desenho da República brasileira não permitiria o sucesso do grande giro histórico preconizado pelo marxismo. Afinal, os adeptos da esquerda, em nosso País, não passavam do habitual índice de 20 a 25% dos cidadãos, a exemplo de outros países.

E para governar eram imprescindíveis: o dinheiro, para a conquista eleitoral; e a coalização, sob pena de ingovernabilidade.

O dinheiro da campanha foi um problema resolvido. Fatiado em múltiplas correntes ideológicas, o lulismo sempre foi predominante. A palavra  do guru resolvia os conflitos internos. Percebeu-se que o Partido não atingiria seus objetivos, sem um culto à personalidade. De Lula. E este, como sempre repetia, estava longe de ser um comunista. Dirimiu dúvidas ao forçar a agremiação à Carta aos Brasileiros. Seu grupo, com muita habilidade, não permaneceu apenas na retórica. Concluiu acordos com significativos segmentos da indústria e do comércio do Brasil. O sucesso de campanha também envolveu a grande mídia. Seu maior grupo, afora as aparências, cortara até mesmo os cafezinhos para seus funcionários. Levara um tombo cambial feio, por força de um mal ajambrado acordo para veiculação de uma copa do mundo, excludente de concorrentes. O debacle foi da ordem de meio bilhão de dólares. Uma fortuna para a época. O BNDES daria um jeito, prometeu Lula. O herói de Garanhuns deu uma senha combinada nos programas televisivos; conquistado o poder, o BNDES cumpriu o pacto e nosso grande empreendedor midiático escapou da morte. Não à-toa investigou-se a Petrobrás e não o BNDES.

 

Estava aberto o projeto de poder que guiava as esquerdas desde as célebres jornadas de 1968. Entretanto, os rabos vitoriosos estavam presos. Era o segundo ponto: o presidencialismo de coalização, verdadeira petição de princípios. Mal ou bem, a ideia é  parlamentarista, que dispõe de meios dinâmicos para consertar o avião em pleno voo. Nossa Constituição criou, em cláusula pétrea, um monstro de muitas cabeças. Até hoje está aí a reforma previdenciária, as emendas, as negociações vergonhosas com um baixo clero que compõe o Legislativo brasileiro. Lula acreditou que domaria o monstro. Seus compromissos de campanha, além dos já mencionados, pelo adjetivo homônimo, a corrupção. Assim, todos ganhavam. Aqueles que sempre mamaram nas tetas do Estado Brasileiro e os neófitos machadianos, que se lambuzaram à primeira gota do mel experimentado. Em grande e jamais vista escala.

O núcleo estava assentado, até a vinda do mensalão e da Lava-jato. Era necessário, ainda, manter as ilusões ideológicas.

No plano interno, projetos populistas, assistencialistas, educação fajuta, de quantidade e não de qualidade. Na medicina idem. O cumprimento das imaginações do fórum de São Paulo aplacou as ansiedades externas. O novo guia universal dos povos se dispôs até mesmo a solucionar o conflito do Oriente Médio. Expectro risível e catastrófico. Demagogia é superfície e o grande edifício da política não se resolve com retoques na pintura de superfície. E o preço é alto.  Assim se fez o projeto de 20, 30 anos de inspiração marxista-populista. Os "loirinhos de olhos azuis" iriam sofrer a derrocada do capitalismo, anunciada por jornais em letras garrafais. Nós não teríamos de saltar mais que umas marolinhas.

Desnecessário enfatizar  tamanha irresponsabilidade. Dos cofres públicos saía dinheiro pelo ladrão. Foram raspados. Política de crescimento (PAC) são, entre outras coisas, esboços já envelhecidos de trilhos ferroviários cobertos a cada dia pelos capinzais. Usinas planejadas sucumbiram no caminho e geraram sérios problemas ambientais. O cárcere teve de abrigar os principais prosélitos da figura redentora, que também tem destino certo.

Erros humanos grosseiros, concluiriam os investigadores do acidente aéreo que  nos vitimou.  Essa a necropsia de nosso coletivo. A consequência: à falta de novos pilotos, nossos eleitores tendem a escolher cocheiros,  o mesmo ou do mesmo naipe, para explodir pelos ares uma nação vilipendiada e triste. A tragédia da tempestade negra e perfeita nos manterá atolados ao sopé da montanha. Somente o ativismo de nossos homens éticos e capazes, inclusive por meio de uma nova Assembleia Nacional Constituinte (por que tanto medo?), já que esta foi elaborada em outro momento histórico, anterior ao desmonte do nefando muro ideológico, poderá nos servir de redenção.

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.