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29/01/2018: O grande pum

Ao certificar-se, por meios tecnológicos sofisticadíssimos, da efetiva ocorrência do "Big Bang", a comunidade científica ouviu da mídia mundial que se havia descoberto Deus. Apressaram-se os pensadores em contestar essa pressa irracional.

Jorge Hernándes Campos, sob o aplauso de Octavio Paz, assim converteu em linguagem popular a expressão saxônica. Steve Weinberg diz que a explosão da pequena bola comprimida, ao espraiar seus elementos, criou o Universo. Mas o que ocorreu antes e logo após o Grande Pum? Weinberg confessa não saber. Aliás, muitos cientistas asseguram que o Grande Pum não ocorreu uma vez só, mas foi recorrente na história do Universo. Bastam as cólicas, as contrações...

Francis Crick, prêmio Nobel de biologia em 1962, face à descoberta, com alguns parceiros, da estrutura molecular do DNA,  sustenta que somente duas teorias são idôneas para explicar a gênese do Universo: a tradicional, criacionista nos termos judaico-cristãos, ou a "Panspermia Dirigida": um navio cósmico de moléculas foi despejado em nosso lar por uma civilização avançada, mas destinada a desaparecer. Daí o início do processo vital em nosso planeta.

Aristóteles - depois de tantos séculos não nos é dado descartar seu gênio - discorreu largamente sobre os problemas das causas. Veja-se, no plural, porque um fato de nosso mundo não é derivado somente do fato antecedente, em que pese este seja, em regra, o mais determinante, mas de um feixe entrelaçado de causas que nele se materializou. Seu conceito sobre as causas, até hoje reverenciado, inclusive no campo da criminologia, parece tornar-se paradoxal, quando trata do Universo. Este não teria início nem fim. Absolutamente infinito. Logo, longe das ideias de causa e efeito. Há muito a ciência afastou tal assertiva, em nosso entendimento modesto, sob premissas falsas.

Basta dizer que continua em aberto a questão do Grande Pum: nada assegura aos físicos de hoje que tenha sido o marco inicial do Universo. Se o fosse, suas causas seriam o efeito de outras, e assim sucessivamente. O certo é que a ideia das causas e efeitos é irrefutável - em nosso mundo. Dizer que não há efeito sem causa é um truísmo, no atual desenvolvimento de nossas ideias sobre os fatos do mundo. 

O mesmo não se pode falar do Universo. Dele unicamente o que se sabe é que se encontra continuamente em expansão. Essa ampliação esteve ao alcance das pesquisas e da certificação pelo homem. Mas não se sabe em que sentido e, muito menos, se ele teve um início e terá um fim.

Aplicando-se à tormentosa controvérsia a teoria das provas, o velho pensador grego vence a contenda. Sua afirmativa foi refutada, mas persiste comprovada, porquanto a refutação não consegue provas. Pelo menos até o presente de nosso estágio científico.

E não há oximoro no argumento. Se tratarmos das causas, teremos os efeitos pretendidos. Sabemos que o mundo está, também, em constante evolução - se dermos causas a ela. Se optarmos por causas de efeitos destruidores, estaremos a optar pelo inverso - a involução, que resultará no princípio da entropia. Aqui nascemos e aqui vamos morrer. Basta dar uma olhada para o direito ambiental. Em nossa pequena periferia cósmica...

Um Universo sem causas e efeitos aumenta nossa responsabilidade por eles nos mundos que o compõem, entre os quais nossa Terra. Somente nós podemos nos cuidar. Não temos, ainda, condições intelectuais de explicar a espontaneidade e infinitude do Universo. Se nos limitarmos a trabalhar para a evolução do mundo, estaríamos trocando a teologia pela ética, diriam muitos. Poderá ser uma mudança transformadora no sentido positivo, mas não conduz ao ateísmo; no máximo, ao questionamento de alegorias evangélicas. 

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.