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08/01/2018: Sociedade alucinógena

Em tempos idos o povo se perguntava: como terminará o mundo? Em fogo, água, terremotos, guerras etc.

Hoje não é possível ter muitas dúvidas: se não o mundo, grande parte de sua gente está e será destruída pelas substâncias alucinógenas. Um mal que, conjuntamente com as armas, sustenta o crime organizado mundial, que movimenta cerca de 5 trilhões de dólares anuais, quantia muito superior à dos PIBs de vários países.

É bom saber. Como as drogas se espalharam tanto? Foi assim em toda a história? Obviamente que não.  Povos antigos e aborígenes desenvolviam rituais para atingir a iluminação: o Chan no budismo chinês, o Zen nos rituais japoneses; ervas foram adotadas,  como o  soma da Índia antiga,  o peiote do povos mesoamericanos, o haxixe no Oriente e Norte da África, os chamanes na Serra de Puebla, para uma "iluminação súbita", no seio de meditações profundas.  Não produziam nada mais que "alteração de "consciência", um "trânsito", que não afetava o sujeito em sua conduta e atividades diárias. Nada parecido com o fenômeno químico atual e suas destruições catastróficas.

Não se ocupam espaços ocupados. As drogas demolidoras entraram no vazio da existência do homem moderno. O "homo economicus" assumiu o lugar do "homo sapiens". Tudo é voltado à matéria e ao mercado. E, como este não dá conta de servir ao homem em sua plenitude, o homem é um forasteiro a viver em terras estranhas. Seu ideal de felicidade e bem-estar não é sequer mais próximo de dias futuros. A geração nem-nem (nem trabalha nem estuda), desamparada e iludida, é campo fértil à deterioração pelas drogas. Não há repressão que resolva o drama do século XXI. A saída, que se pode vislumbrar, só se apresenta num modo radicalmente diverso de estruturar-se a vida cotidiana. A humanidade, como um todo, reclama esse "salto quântico" da física minúscula.

A causa histórica da proliferação contemporânea dos estupefacientes da morte foi muito bem descrita pelo Nobel de Literatura de 1990, o mexicano Octávio Paz:

"Se efetivamente queremos combater o uso das drogas, deve começar-se pelo princípio, pela reforma da sociedade como um todo e de seus fundamentos sociais e espirituais... Qual é o desamparo que provoca a necessidade dos alucinógenos? Nasce de uma carência e tem muitos nomes. Manifesta-se às vezes como necessidade de repouso e de esquecimento, outras como uma sede de ir além de nossas vidas mesquinhas e tocar no que nos prometem os contos e as mitologias. É uma ansiedade para sair de nós mesmos para encontrar... O quê? Ninguém o sabe exatamente. Sabemos, sim, que essa angústia é sede de felicidade, de bem-estar. As falhas de nossas sociedades são múltiplas e diversas, umas materiais e outras espirituais,  umas econômicas e outras políticas, mas todas elas englobam a palavra "mal-estar". A sede de bem-estar é a resposta da sociedade e dos indivíduos. As sociedades do passado satisfaziam essa sede de muitas maneiras. Eram comunidades menores e menos homogêneas e impessoais; cada um vivia dentro de uma rede de relações afetivas: a família, a confraria artesanal, as irmandades, as associações profissionais, os bairros, as igrejas e as paróquias. O indivíduo não se sentia só no mundo. E tinha ainda o fantástico e imaginário: os sacramentos, os ritos, as cerimônias religiosas. O tempo não era uma sucessão vazia nem seu transcurso era medido pelo relógio mas pelo alvorecer, o meio-dia, o entardecer e a noite. Cada ano, em certos dias marcados, o passado e o presente confluíam e com eles os mortos e os vivos: a festa era, mais que uma pausa, uma congregação dos tempos. Perdemos tudo isso. Vivemos no deserto urbano."

À maioria de hoje, o dia de encontro entre passado e presente é dia de praia. E as governanças creem que o prioritário é a economia, a seu modo. Nada têm a ver com o protagonismo de uma nova cosmovisão. Derrotarão (!) o crime organizado e o desenvolvimento material, puro e simples, será a chave de todas as soluções da vida futura.

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.