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04/01/2018: É possível imaginar

Depois de um ano e outros mais de agruras, é natural que um povo imagine um futuro celestial de hipóteses indevassáveis, ainda que posteriormente a esta passagem terrena. Talvez seja esse o fato mais significativo da origem das religiões e das crenças paradisíacas.

O brasileiro atual é a imagem absoluta desse ainda enigmático destino futurista. Logo, todas as suposições dos pobres condicionados deste planeta são válidas.

A melhor delas - parece-nos -  é a do etéreo infinito, onde viveremos sem desejos, angústias, ansiedades. Mulheres e homens acoplarão suas almas em estado inclassificável de felicidade, no espaço que conquistarão. Lá Deus demonstrará seu dom de onipresença. Nosso mundo inferior, biológico, histórico, cultural, não terá nenhuma relação com o mundo etéreo das complementaridades imediatas. Sim, tudo espiritualmente complementado, independentemente do tempo e do espaço, nesse mundo de simples amor nem se fala em paz, porque será inerente ao cosmos. Nada se supõe sem o contrário, e essa relação concreta, como todo o resto, lá será desconhecida.

As almas só encontrarão dificuldades para ingressar no mundo etéreo. Daí talvez tenha sido extraída a ideia de purgatório pelas primitivas seitas. Enquanto o último resquício biológico - a memória do ódio, do amor, das infelicidades, das dores - não se dissipar, esse contingente biológico - ainda se poderá usar o termo, nesse estágio - aguardará. A partir do imperceptível momento do mundo imaterial e infinito, tudo será imaterial e infinito. O abstrato sequer será menos abstrato, em relação à matéria indiferente.

Por isso é que aludimos à vida material e condicionada, própria de nosso mundo. Não temos a mínima ideia, o mínimo contato com aquele mundo futurista e cósmico do qual seremos ondas absolutamente realizadas, em comunhão

complementada com nossos amados, que não será minimamente cotejável com os pobres e fugazes orgasmos do reino da biologia. Alguns pensadores arriscaram o nome de metafísica a essa outra dimensão imaterial.

Entretanto, temos algo poderosíssimo, chamado imaginação. Ela é que nos permitiu as ligeiras considerações anteriores, sem nenhum lastro empírico - que não se compatibiliza com o etéreo. Contudo, a imaginação de um mundo menos subordinado e carente de liberdades, proporcional cada vez mais à miséria das escalas sociais e das nações, poderia valer-se do paradigma celestial para amenizar nossas relações sociais, políticas, econômicas, enfim, humanas. Nosso Brasil reclama como poucos uma convergência de um todo de vontades - o povo - em torno do paradigma do etéreo e desvinculação do grosseiro materialismo maniqueísta que promete nossa salvação.

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.