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04/10/2017: Separação

 * Amadeu Roberto Garrido de Paula               

 

A linda Catalúnia quer liberdade. A brava espanha a concebe de outro modo. Durante o confronto muitos casais se separam, em todo o mundo. Filhos deixam seus pais em busca de um futuro misterioso. Contratantes desfazem seus contratos. Outros homens renegam seus deuses. Beijos são esquecidos, libera-se a própria boca. A guitarra celebra tristemente as separações.

Nunca vivemos sós e sempre quisemos nos separar. Uma tensão intensa e contraditória. A busca da conjunção e do uno. Esse dilema é a tragédia humana, que pôs fim à vida de milhares de seres. Em seguida à confraternização, afagamos nosso próprio ser ao inicar o sonho impenetrável.

O sentido político é a superação dessa nossa contradição elementar. Abdica-se do indíviduo integral para construir o cidadão. A "res publica" não conforta como a própria casa e é absolutamente indispensável, para que esta se mantenha em pé. Na Grécia e na antiga Roma, não tínhamos o indivíduo. A vida era do cidadão, em público, na polis, nas Assembleias. O homem sabia desvincular-se de seu casulo primitivo.

A opressão conduziu ao sentido inverso. O Iluminismo fez prevalecer o sentimento individual. A separação individual se opôs à vida civil que antes aglutinava e sedimentava. Os tecidos sociais se esgarçaram e a democracia moderna veio consagrar os meios de composição diuturna dos conflitos, sob uma autoridade estranha, do judiciário.

Velhos e venerandos costumes não são descartáveis. Linguagens e dialetos unem um povo menor. A solidariedade em regiões árticas é impensável em civilizações com as quais aqueles viventes têm de manter sua distinção. Porém, do mesmo modo que o indivíduo e a nação, as imposições da aldeia global são inarredáveis.

É possível conciliar  os "mores" individuais de um povo com instituições políticas. Instituições diferentes e próprias de um mesmo Estado. Quer-se maior exemplo que o dos Estados Unidos da América, unidos depois de sangrenta guerra de secessão? Mas será necessária, em pleno século 21 e no atual estágio de nossas ciências políticas, nova secessão, agora em "terras de Espanha", para que depois se faça a reunificação sobre o sangue e as lágrimas dos espanhóis, que deles já regaram à saciedade seu santo território? 

 * Amadeu Roberto Garrido de Paula é advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.