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22/09/2017: A caneta-tinteiro e minha avů

O mais elevado símbolo de minhas infâncias

ficou indelével em minha já gasta memória

a figura de minha vó, descansada após a faina

sisuda, respeitáveis óculos de hastes de tartaruga

debruçada sobre a folha com a venerável caneta

que, ao que ouvira, fora declarada num inventário.

Pausadamente, sinal de que pensava cada palavra,

mirava o mundo pelas frestas da sala envidraçada.

Será que criava um fato por aquela literatura

ou respondia a um fato consumado ou a consumar-se

ou limava um poema ao alcance do ginásio que não pôde cursar?

O significativo é que nas ruas de terra de minha memória

há dois santuários próximos e sempre fechados

num deles é a imaginação da fisionomia atenta de minha avó

noutro da caneta-tinteiro que ela amava tanto e levou consigo.
 

  * Amadeu Roberto Garrido de Paula é advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.