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21/09/2017: Memória inconstruída

 

*Amadeu Roberto Garrido de Paula

Não temos memória nacional porque não a construímos. Não é importante. O que importa é acumular dinheiro, promover o "desenvolvimento", que é econômico e não pessoal, que não é cultural, pertence ao materialismo da brutalidade. Vale o que nos dará amanhã o automóvel, a parafernália eletrônica, a felicidade criada pelas coisas, como se não fossemos nós os criadores das coisas. Vamos, e as coisas ficam a sorrir ou mudas, como nosso criado mudo, como disse um imperdível poeta.

Entre os esquecidos, vamos lembrar de Mário Filho. O jornalista, por vezes lembrado por ser irmão de Nelson Rodrigues, o que poucos sabem. Para conhecedores, melhor que o irmão. São desnecessárias comparações.

Extremamente culto, Mário Filho, sem alarde, converteu sua linguagem esmerada e sem excessos em prosa popular, para que, num momento sem televisão, rádios comuns e mal sintonizados, pudessem ler, nos jornais do dia seguintes, como se fez o gol de seu querido Flamengo, sua construção, seus traços, seus adereços e sua conclusão, os traços artísticos de homens e uma esfera.  O Brasil seria o país do futebol, sabia Mário Filho. Hoje, o mundo é do futebol. Há um encanto inexplicável no futebol, antes coisa de homens, hoje de belas jovens, famílias inteiras e tudo o mais. O futebol rega a agua benta nossas almas. Torna-nos alegres e tristes. Torna-nos vivos. Não é assim a vida?

O maior estádio do Mundo, o Maracanã, leve seu nome, em razão da luta que desenvolveu para abrigar 200 mil pessoas. Não poderia adivinhar a tragédia de 50. O fla-flu começara 50 anos antes do primeiro jogo, diria das profundezas de sua alma poética.

Morto jovem, depois de um ataque cardíaco, provavelmente de tanto torcer e sofrer as naturais frustrações do futebol. Sua mulher, insuportando o trágico, foi um mês depois. Acompanhá-lo aos pés de Tupá, seguir o escritor que tocou no tabu: o negro no futebol brasileiro.

Entretanto, vamos ao Maracanã, ao "Maraca". Jamais no Mário Filho. É apenas um exemplo, como sabem. Os maiores homens desse país, que se foram, jazem em berços da eternidade, que nada têm de explêndidos.                                           

  * Amadeu Roberto Garrido de Paula é advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.