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24/07/2017: As senhas

Um homem sentou-se sobre a sarjeta

A ler um livrinho, era Virgílio

A narrar os périplos de Eneias

Do grande Júpiter, da terrível Juno

Da loba e dos gêmeos que sugavam seu peito;

Os grandes torvelinhos dos mares

Os homens valentes e as matronas frenéticas.

Engravatado, despertou as curiosidades,

Ao baixar a noite e a leitura sob o poste.

Por alguns momentos mudou-se para um mundo mágico
Talvez uma fada, por Júpiter, o fizera esquecer

Todos os dígitos, do banco, da internet, da porta do prédio.

Vindo a caminhar de um jardim

Ficou exposto à natureza

Ingressou no mundo de Virgílio

O software eram númens e penates
Deuses dos poetas, dos lares e das lareiras.

Certamente  com eles seria vencedor

Nada importavam as senhas e a rua bastava.

A noite tépida o estimulou a não procurá-las

E calmamente voltou a ler Virgílio na calçada,  

Até reverter a  um homem comum.

Segundo o determinaram aquelas divindades

Caminhou àquele sítio numinoso

Seu apartamento, digitou imediatamente a senha e foi aquecer-se.

Ninguém o compreendeu

A partir daquele lampejo de Paulo, Swedenborg,  Kierkegaard, Gabriel Marcel,

Dante conduzido pelo mestre na barca de Creonte,

A Fama, monstro cruel, como narra a Eneida, tornou-o o louco.

  

Amadeu Roberto Garrido de Paula, é Advogado e sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.