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A LIÇÃO A SER EXTRAÍDA DA TRAGÉDIA DE BOSTON

 

* Amadeu Garrido

Embora não pudesse assumir outra conduta, nem mesmo a de pedir a seus policiais que se empenhassem em capturar vivos e na forma da lei civilizada os irmãos Tzarnaev, à primeira vista os verdadeiros (talvez não os únicos), responsáveis pelas explosões na maratona de Boston, o Presidente Obama não deixou de exteriorizar sua perplexidade ante o fato de jovens integrados à sociedade americana e com futuro promissor (o mais jovem, de 19 anos, Dzokhar, era segundanista de direito) praticarem esses atos ensandecidos. A mesma incompreensão o Presidente já exteriorizou em episódios de violência coletiva anteriores, em que bons moços dispararam indiscriminadamente contra colegas de escola. Americanos, que nada deviam a uma sociedade que os teria abrigado.

Se os fatos (O FBI continua a investigar) se restringiram ou não à conduta isolada dos dois irmãos, já passou da hora de a sociedade americana, se quiser livrar-se de futuros eventos dramáticos como esses, aplicar conhecimentos que possui no campo da psicologia, da psiquiatria, da sociologia, do direito, da pedagogia, e investir a fundo em medidas de ajustamento de sua população juvenil.

Inexplicavelmente, seres crescidos em meio ao conforto e dispondo dos mais avançados equipamentos da estonteante tecnologia moderna, com os quais nossos pais sequer sonhavam (note-se que a maioria dos atos de ataques coletivos não foram perpetrados por filhos de proletários ou negros do Brooklin), caem nas drogas, em crises existenciais que reclamam profundas verificações de suas causas, e as coisas terminam desse modo. Em geral tímidos, mas quase sempre bem relacionados com seu entorno humano, como afirmam testemunhas, de um momento para outro parecem surtar e cometer esses terríveis agravos à vida alheia. Evidentemente, a sociedade não pode tolerar essas injúrias de lesa humanidade, deve prender e punir os culpados, na forma da lei, quando eles próprios não dão cabo da vida antes de serem presos. O comportamento indecifrável dos irmãos Tsarmaev nos remete à classica obra de Fiódor Dostoiévski, escrita "nos anos mais selvagens da filosofia" (fim do século XIX), em que o personagem Ivan Karamazovi delira numa revista: "Destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo... TUDO SERÁ PERMITIDO, até a antropofagia. O egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável,  a mais racional e quase a mais nobre para a situação". Parece que, em certas cabeças, os homens não saíram desses tempos em que começou a medrar o terrorismo individual, principalmente na Rússia; e as instituições contemporâneas nada fazem para colaborar na formação do entendimento do por que nascemos e por que morreremos, e de que a solidariedade e o amor são os fundamentos para o desenvolvimento do processo civilizatório.                                                                                

Entretanto - e preferimos estar errados - a sociedade americana parece dar mais valor aos espetáculos cinematográficos que cercam esses eventos, à demonstração da eficiência de seu aparato policial, do que tratar de empregar medidas práticas no sentido da arrumação desses cérebros ainda verdes e desenvolver uma profilaxia que garanta a vida pacífica que a sociedade mais desenvolvida do mundo pode propiciar a seus cidadãos.

E não basta o discurso presidencial. É preciso colocar essas medidas em prática. Para tanto, não faltam dinheiro (o país vem de economizar bilhões de dólares com a redução de conflitos internacionais) e conhecimentos científicos nos campos mencionados. Nada obsta que profissionais especializados estejam obrigatoriamente nas escolas, e ainda nos clubes, nas comunidades de amigos, e principalmente entre os drogados. A neurofilosofia concede à humanidade recursos jamais vistos, por meio de ensinamentos concretos e o uso de recursos químicos.

Não é possível que um país que descobre planetas habitáveis, planeja viagens espaciais tripuladas e até mesmo a ocupação de outros pontos do cosmos além da Terra, descure da formação de seu próprio povo, deixando pessoas, que poderiam ser curadas, desamparadas de tratamentos multidisciplinares que podem forjar as bases sólidas de uma sociedade guiada pela lógica da convivência pacífica e do bem comum.

Ao adotar uma ampla política nesse sentido preventivo de boa formação social, os EUA, além de tudo, estariam dando exemplos a outras sociedades, que imaginam a educação como um amontoado de incomodados a ouvir alguém que não toleram e agridem, como, infelizmente, hoje ocorre em nosso país. Sou do tempo em que uma saudosa guarda civil de São Paulo mandava seus emissários às escolas primárias, barracões toscos que eram de grande utilidade social, para conversar com as crianças e repassar seus conhecimentos práticos da vida cotidiana, desde o auxílio a um cego até como nos devemos comportar racionalmente, quando estamos no meio da travessia de uma rua e o fluxo de veículos se inicia e interrompe nosso caminhar. Portanto, não se trata de utopia.

 

* Amadeu Roberto Garrido de Paula é advogado.

Para mais informações sobre o tema ou caso queira entrevistar o consultor jurídico da CNPL, Amadeu Garrido de Paula, entre em contato com a De León Comunicações pelo email danielle@deleon.com.br ou pelos telefones (11) 5017-4090 / (11)5017-7604.