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O SANGUE VERTIDO PELAS MONTANHAS COLOMBIANAS

* Dr. Amadeu Garrido

 

É comum enterrarmos, como os avestruzes, a cabeça sob a areia, para não encarar a realidade da morte, tão insuportável como a retidão da luz solar. O Jornal El País vem de noticiar a entrega de um documento, que esparge sangue,  ao Presidente da Colômbia, João Manoel Santos, pelo Grupo de Memória Histórica do país.

A ignomínia descrita dá conta de 220.000 mortos numa solerte guerra civil que eclodiu nas montanhas da Colômbia entre 1950 e 2013. Entre eles, 81,5% integrantes da população civil. Mais de 25.000 desaparecidos, índice que supera o das ditaduras que infelicitaram o cone sul. Dos colombianos mortos nos últimos 54 anos 10 decorreram desse dissimulado combate intestino; 4,7 milhões de pessoas fugiram de seus sítios de nascimentos, desterraram-se para tentar escapar da violência; 10.000 colombianos foram amputados; 6.000 meninos colombianos foram recrutados pelo exército ou pela guerrilha; 1.530 pessoas carregam até hoje marcas torpes e agressivas de sevícias. A tétrica lista de horrores é vasta. Segundo uma testemunha do conflito de Trujiilo, "depois de amarrá-los, enchiam suas bocas de água e com uma motosserra contorvam os membros de seus corpos. Terminavam o "trabalho" com navalhas e maceravam as feridas abertas com ácido." É inimaginável pensar que os seres tidos como racionais que habitam este planeta pratiquem atos dessa natureza.

Os dados superam quaisquer outros da América. A Guatemala vitimou 200.000 pessoas entre 1960 e 1966; El Salvador 75.000, entre 1975 e 1992. O Brasil dizimou 500.000 indígenas, desde o descobrimento até 1999, não por esses meios diretos. Em plagas mais distantes e no âmbito de conflitos internos, os números das atrocidades do homem estão na casa dos milhões: a Coreia do Norte tirou a vida de 400.000 opositores do regime até 2006. Sadam Husseim matou 30.000 entre 1970 e 2003. São constatações que não consideram os países que cumularam suas violências internas com conflitos externos, sempre na casa dos milhões de sacrificados, como nos casos da China Comunista (40.000.000), do Bloco Soviético (10.000.000), da Etiópia (4.000.000), do Sudão (1.900.000), do Cambodja (1.870.000), do Vietnã (1.800.000), do Afganistão (1.800.000), do Paquistão (1.250.000), da Nigéria (1.100.000), de Moçambique (1.100.000), da guerra Irã-Iraque (1.100.000), da Síria recente, que já ultrapassa 100.000, sem falar das guerras mundiais e dos demais embates repugnantes da raça humana. Essas estatísticas têm números arredondados e emanam de Z. Brzezinzki, "Out of control: Global Tournal on The Eve of Twenty-First Century, 1993" e estudos paralelos.  Nesse quadro, o poeta Dante Alighieri  deixa de ser um criador imaginário para se apresentar como um triste descritor da realidade ao lançar a maioria dos homens no inferno, em sua Divina Comédia. E Jesus, ao ir para a cruz para nos salvar, infelizmente parece não ter dado conta da missão que recebera de seu Pai.

Não foi suficiente à nossa vizinha da fronteira leste a extinção de 90% de sua população com a ocupação espanhola e a criação do "Vice-Reinado de Nova Granada". Segundo o historiador e filósofo Gonzalo Sánches, em entrevista ao citado jornal espanhol, as causas determinantes dessa história de horrores é a falta de diálogo em torno da questão agrária, a exclusão política de um povo que vive sob uma burocracia democrática porém sem participação efetiva, a inexistência de debate político, a tolerância com o pensar diverso e os altos níveis de desigualdade presentes na sociedade. Nada muito diferente do que existe entre nós.

Merece destaque o fato de que a verdade só recentemente vir à tona (o documento foi entregue ao Presidente na última quarta-feira). Para todos os efeitos, a vida correu bem nas cidades, as instituições sempre funcionaram e  num suposto clima de amplas liberdades. Não existia esse passivo atroz e indigno, confinado ao campo e às altitudes montanhesas. E tudo na última e sangrenta metade do século XX e da era dos extremos, em menos de cem anos de solidão.

* Dr. Amadeu Garrido é advogado.