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O PARAÍSO PERDIDO

* Dr. Amadeu Garrido

A cúpula do PT não destoou do hábito partidário de negar sistematicamente os procedimentos ética e politicamente desvaliosos. A deterioração do governo e da agremiação se inserem no passivo da contabilidade dos aliados. Daí a única conclusão possível, embora não expressa: a purificação do Partido que veio à luz para conquistar a vitória da esquerda no Brasil, por meio da "descontornação" (para usar a expressão de Sheakespeare) das nuvens que se configuraram como sustentáculo de uma prolongada base de apoio e que se carregaram. O céu político foi objeto de uma putrefata poluição. Acontece que sob ele vivia uma nação.

Ao acoplar-se com gregos e troianos, fazendo "tabula rasa" de passados detrimentadores da coisa pública, em benefício pessoal, que o próprio partido ora em decomposição criticava selvagemente em seus caminhões de som, o PT entregou suas supostas origens cristalinas a Lúcifer. Numa rápida retrospectiva da esquerda brasileira que sobreviveu sob o tacão da ditadura militar, constata-se que esta, em que pese a amplitude da repressão, não logrou enterrar o pensamento "progressista" ou "revolucionário". Este continuou a medrar, ainda que com sussurros em espaços apertados e labirínticos, mesmo posteriormente ao Ato Institucional n. 5. Pensadores profundos no campo da sociologia e da política, embora inibidos coativamente de expor suas ideias, acumulavam-nas para o "outro dia, que haveria de ser", como se ouvia da canção. Com a liberalização gradual e a volta dos exilados, as ideias foram encorpadas pelos debates de posições múltiplas e heterogêneas, que fazem bem à democracia, mas na época era vista como algo destrutivo da "unidade", por vezes materializada no "voto útil".

O fenômeno da sublevação de massas trabalhadoras, ao final da década de 1970, com suas jornadas heróicas, traçou o caminho da tão necessária e apregoada unidade: uma grande parte dessa esquerda, ressalvados os segmentos que ficaram em partidos próprios, se incorporou a um novo e pujante partido, representante da classe operária, intermediada pelos sindicatos que a organizaram. Estava delineado o caminho para a conquista do poder. Ninguém seguraria essa agremiação de alta expressão quantitativa e qualificada por intelectuais, artistas, escritores, professores universitários, profissionais liberais emergentes do movimento estudantil etc.

Ocorre que, depois de reveses que são próprios dos partidos de esquerda em todas as partes do mundo, em geral confinados entre 20 e 30%, na melhor das hipóteses, dos votos válidos, o resultado foi atingido. Conquistou-se o poder, depois de uma expressa renúncia de princípios e de uma transfiguração civilizada do líder. As coligações eleitorais teriam de ampliar-se no "day after", sob pena de ser impossível o exercício do poder. Para tanto, não se pensou em caráter e tampouco em escrúpulos. Tudo era válido, menos ceder ao governo anterior, posto que partidos paradoxalmente contrários, porquanto ambos fundados nos princípios da "terceira via", da social democracia e do "welfare state", com a observação de que correntes expressivas do PT alardeiam tais bandeiras como táticas e não como estratégia ou valor universal. 

O projeto de poder, no mínimo vintenário, a posse como se fosse base de um usucapião ordinário, importou em atos de muito maior gravidade que os pré-eleitorais, vindos a lume no famigerado processo do mensalão, cuja decisão deverá levar seus principais líderes ao cárcere, embora seja previsível que será mais assemelhado a um "resorting" ou hotel fazenda, construído especialmente para abrigar os companheiros no momento inicial da pena, se nada for alterado ante os recursos interpostos e que começarão a ser julgados em agosto próximo.

Entretanto, no ciclo inevitável da vida privada e pública, as parcas, deusas gregas do nascimento, da vida e da morte, se fizeram presentes na experiência petista. Nona trançou bem os fios do nascimento do partido; Décima puxou e enrolou os fios emaranhados, que foram distribuídos e usufruídos por uma classe política deplorável até hoje; posto isto, Morta se precipitou e compareceu desde logo ao cenário, cortou os fios e determinou a partida da gloriosa agremiação petista.

Sem coragem para assumir os erros, como sempre, o PT os atribui aos aliados, conservadores, reacionários, fisiológicos. Uma conduta que lembra a lenda das duas meninas inglesas, relatada por Thomaz De Quincey: ante uma laranja a ser repartida, o melhor pedaço seria saboreado por aquela que não a partiu, por se presumir que houve fraude no golpe do rateio. Se o PT repartiu o poder e caiu nas mãos de quem não o fez, a única responsabilidade é sua.

Isolado e responsabilizado pelo povo, o PT, por mais que esbraveje e esperneie, nos moldes de seu líder, jamais recuperará o poder e tampouco logrará exercê-lo. O Brasil, a prevalecer o poder legítimo e até mesmo inexplicável que se manifestou nas jornadas de junho, poderá caminhar no rumo de um Estado civilizado, fundado na liberdade, nos demais pressupostos de uma administração moderna e na igualdade de oportunidades.

* Doutor Amadeu Garrido é advogado.